Remanso, Sábado, 26 de Maio de 2018

Vício em celular é semelhante a crack ou heroína, afirma autor

Por Souza Filho
14/05/2018 12:29

Li “Irresistível” em busca de ajuda. Como três quartos da população, passo mais de três horas por dia ao celular, e a parte desse tempo em redes sociais é maior do que gostaria de admitir.

Após algumas horas, porém, senti que quem estava sequestrando meu tempo era Adam Alter, autor do livro, com divagações sobre séries viciantes do Netflix, detalhes irrelevantes sobre seus entrevistados e dezenas de exemplos de joguinhos no estilo Candy Crush.

Por sorte, após 200 páginas, ele apresenta a solução. Um vício comportamental se resolve com uma mudança gradual de hábito para se afastar das tentações, e não com punições extremas ou mera força de vontade. É uma paráfrase do que diz o best-seller “O Poder do Hábito”, de Charles Duhigg, mas podemos perdoar a falta de originalidade.

A chave é descobrir o que torna o vício compensador e, então, substituí-lo por outra coisa, diz o professor da Universidade de Nova York. É como usar um chiclete de nicotina, mas compreendendo que, enquanto o fumante acreditar que o cigarro aplaca sua ansiedade e não tratar esse problema de outras formas, ele vai desejar fumar.

A comparação entre vícios induzidos por comportamentos e por substâncias químicas pode parecer extrema à primeira vista, e até hoje não é consenso. Foi após décadas de debate que, na quinta edição do manual de distúrbios mentais DSM, em 2013, foram incluídos vícios “não relacionados a substâncias”.

Para quem acha que não há diferença, um vício se instala quando a mente associa um hábito ao alívio para o sofrimento psicológico. Checar o Instagram, usar crack, roer as unhas ou apostar no caça-níqueis são muletas para problemas externos mal resolvidos e só diferem em intensidade.

Para Adam Alter, o vício é um problema social e somos todos viciados. Repetidas pesquisas demonstram que o uso de smartphone nos deixa infelizes, mas não conseguimos deixar de ceder à tentação.

Até as empresas que dependem dos nossos excessos compulsivos, como o Google, admitem que o público está de ressaca do uso de celular.

No I/O, conferência anual da empresa nesta semana, foi anunciado que o novo Android terá recursos para ajudar o usuário a se afastar de seu dispositivo na hora de dormir e de se concentrar em uma tarefa no trabalho.

Não deixa de ser um equivalente digital ao cigarro com filtro ou vaporizador. O celular que te diz a hora de parar é bom, mas ainda é um celular.

É o mesmo raciocínio que levou o Facebook a cortar o alcance das notícias no início de 2018, argumentando que elas deixam as pessoas infelizes.

“O tempo que os usuários gastam no Facebook vai diminuir, mas é a coisa certa a fazer”, disse Mark Zuckerberg, presidente da companhia.

Segundo o Nielsen, o tempo gasto no Facebook diminuiu 24% por pessoa na virada do ano passado para 2018, mas o lucro da empresa cresceu 63% no primeiro trimestre.

Mas o problema é mais coletivo do que livros como o de Alter podem levar a crer. Em um momento em que a empolgação com as redes parece ter passado e nos damos conta de que estávamos viciados, cabe pensar coletivamente como o espaço público da internet pode ser retomado, para resolver as causas estruturais da nossa fissura por likes e compartilhamentos.

Ao contrário do que prega Zuckerberg, a solução talvez não seja prescindir do jornalismo, e sim investir nele e nas discussões qualificadas. Também não precisamos demonizar a tecnologia, como não seria certo botar fogo na banca de jornal porque a qualidade dos tabloides é questionável.

A dica de ouro para evitar vício em celular, que é desligar qualquer notificação que não seja um contato direto com outra pessoa, continua valendo, apesar de “Irresistível” parecer discordar até disso. Em alguns momentos, o livro questiona se amizades virtuais seriam “válidas”, o que não faz mais sentido algum.

O livro de Alter sugere que menos tecnologia significa mais interação social, mas já não é bem assim que o mundo funciona. O importante é manter a qualidade das nossas relações, seja com um grupo de WhatsApp ou almoçando sem checar um smartphone.

Folhapress

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